Mais uma amiga está prestes a juntar as escovas de dentes e migrar, de vez, para o grupo das casadas. Como (quase) todas as noivas, ela anda meio histérica e em crise existencial há poucos meses do grande dia. um período patético e bem complicado. Aliás, meus pêsames ao futuro marido, pois é uma fase onde parecemos estar de TPM 24 horas.
Ela sabe meu gosto pela leitura, sobretudo meu amor pela escrita. A partir disso decidiu me pedir ajuda. Seu SMS dizia: "escreva meus votos." Me soou bastante estranho no primeiro momento, mas não deixaria de estender minha mão amiga nessa circunstância.
Partindo do princípio de que não poderia escrever sobre o amor do casal com propriedade, afinal, quando o assunto é relação, sabemos muito bem sobre as nossas, mas as de outras pessoas conhecemos superficialmente, pedi que ela escrevesse tudo o que esperava de um casamento. Sabendo de sua pouca intimidade com textos, sugeri que ela criasse tópicos. Ela, então, reuniu algumas palavras e mandou um novo SMS. Eu mandei ver!
"Querido,
Dedicamos AMOR um ao outro durante tanto tempo e pretendemos seguir este CAMINHO, por isto estamos aqui, nos UNINDO em matrimônio. Tivemos PACIÊNCIA e sabedoria para cultivar esse SENTIMENTO ÚNICO. Apesar de tudo isso, infelizmente não tive criatividade para escrever meus VOTOS. Pedi ajuda a maria, que pacientemente, assim como você, cedeu aos meus encantos, além de não poder me negar absolutamente nada durante esse período, já que estava um pouco nervosa.
Enviei algumas palavras-chave para compor esse texto, escrito por ela com muito carinho. Quanto aos votos, só gostaria de ressaltar que não mudaria em nada se eu os escrevesse ou não. EU TE AMO de todo o meu coração e pretendo te fazer feliz no DIA A DIA. Nesse momento eu devo estar indo às lágrimas e com certa vontade de esganar a Maria, mas ela é um mal necessário. Mas tenha certeza, querido, independente da minha falta de talento para escrever, tenho talento de sobra para te AMAR. Um BEIJO."
Por e-mail, encaminhei a mensagem há pouco e aguardo resposta. Junto com os votos, escrevi a seguinte justificativa:
"Amiga,
Obrigada pela oportunidade, mas não pude expressar seus sentimentos. É muito difícil falar de amor. Mais difícil ainda é falar sobre o amor do outro. Geralmente, quando amamos demais, fica ainda mais complicado mensurar em palavras. Entende? Não é pecado não saber o que dizer em certos momentos. Votos são lindos, mas não há nada demais em não conseguir expressar sentimentos. Isso não significa amar a mais ou amar de menos. Mas, ainda assim, decidi falar sobre vocês de forma leve e, espero, inspiradora. A essa altura, a última coisa que, de fato, comprovaria o seu amor, seria meia dúzia de palavras. Aja como tem que agir, ame como tem que amar e seja o que deve ser e, principalmente, quem mostrou ser até aqui. A caminhada é longa, minha querida, e não são palavras prontas que farão com que ele se apaixone por você ainda mais. O amor acontece todos os dias e as atitudes demonstram muito mais que um simples texto escrito em um pedaço de papel.
Com amor,
(apenas) Maria"
"Dorme, dorme, dormideira e só acorda segunda-feira." Passei parte da minha infância olhando para o chão com o intuito de encontrar uma Mimosa Pudica. Esse é o nome científico daquela simpática plantinha que, ao ser tocada, se fechava por inteira, graças a um processo de defesa.
Dia desses, voltando do trabalho, eu encontrei algo parecido na rua. Passei o pé na tentativa desesperada de fechar as pequenas folhas. Em vão... Era uma espécie parecida, mas não era a bendita! E me dei conta de que nunca mais me deparei com uma dormideira no caminho... Ou talvez eu ande olhando pouco para o chão. É tanta coisa pra pensar, pra fazer e olhar, que as dormideiras desapareceram.
Poderia colocar a culpa na evolução, "com tanto prédio construído, afinal, como cultivar dormideiras?" Mas acho o que cultivamos pouco mesmo é o ato de estar atento ao que também não importa. Eu aposto que, depois que cresci, uma milhão de dormideiras ainda cruzaram o meu caminho, mas estava ocupada demais pra perceber.
É simples: crianças, durante o processo de crescimento, se importam com as coisas mais banais possíveis. Eu me lembro, quando menor, de ouvir atentamente o que meu avô falava. Não interessava o assunto! Ele falava sobre Brizola e, aos sete anos, eu absorvia tudo aquilo. Tá certo dizer "ok, crianças não têm metade dos nossos compromissos e preocupações", sim, é verdade! Mas também poderiam ter o nosso desinteresse. E não têm!
Tenho saudades de quando eu observava mais, falava menos. Tenho saudades do meu avô e das dormideiras. As vezes, com toda essa loucura, tenho vontade de que alguém cante pra mim a música que me permita dormir numa sexta e acordar três dias depois, porque esse excesso cansa e aquele tempo não volta mais!
(por hoje) Maria
Querida, me desculpe, mas eu não posso compactuar com tudo isso. Olha, Clarice, nem tudo é como este filme horroroso que você assistiu hoje de manhã. Não há fadas, nem carruagens, tampouco sapato de cristal. Príncipes, então, fora de cogitação, já que somos todos imperfeitos. Mas quando você estiver mais crescida vai aprender na prática, por ora e como mãe, me sinto na obrigação de não alimentar toda essa baboseira acerca de um mundo onde não existe tantos contos. Clarice: é tudo muito diferente.
Não sou uma rainha, também não me sinto preparada para produzir princesas, minha querida. Me desculpa mais uma vez! Não dá para sustentar essa fama de coitada por muito tempo, como fez a Branca de Neve, muito menos dormir e acordar maquiada. As coisas não são fáceis quando não se é a Cinderela.
Clarice, minha filha, eu sinto muito ter que dizer isso, mas a madrasta está em todos os cantos. Esse é o único personagem que, de fato, você pode encontrar no caminho. Travestido das mais diversas fantasias, poderá, inclusive, se fazer de amiga para abocanhar os seus sonhos. Não permita! Seja menos ingênua que a Bela Adormecida, por favor, e esqueça aquela pose puritana de que não “desce do salto” para lutar pelo que é seu.
Veja, Clarice, apesar do real não ser realeza, de um todo, o mundo não é tão ruim. Há pessoas que vão te amar, cuidar e te proteger. Pode acontecer de outras te machucarem, mas vão existir aquelas que te farão sorrir e, como as fadas desses contos, irão te abençoar com uma preciosidade chamada felicidade. Sorte a sua, minha querida!
Vestidos rodados não são encontrados em liquidação e nem sempre são adequados para o dia a dia. Você poderá ser chamada de cafona se optar por modelos parecidos com os da Rapunzel. Os coques, penteados estilo meio preso e meio solto, ou aquela trança que te encantou, serão usadas apenas em momentos especiais, porque princesas não são apressadas como nós, Clarice! Dispomos de pouco tempo para ser, crescer, prosperar e amadurecer. Filha, você vai se cansar de muita coisa, em certos momentos será a bruaca da história, mas tudo isso vai te construir, para você que você mesma desconstrua... E construa de novo, até não haver mais o que fazer, porque, meu bem, ao contrário do irreal, o The End é de fato o fim.
(por hoje) Maria.