A caminho do trabalho, sentada no cantinho do ônibus,
observei um senhor entrar com duas bolsas nas mãos. Pareciam muito pesadas. Ele
se ajeitou em frente ao meu banco, mas de costas pra mim. Pedi a moça ao meu
lado para que o cutucasse e ofereci o meu lugar. Ele logo aceitou.
Ao me levantar, o ajudei com as bolsas. Conforme eu havia
observado tamanho seu esforço, estavam realmente muito pesadas. Enquanto ele se
acomodava no banco, eu relutava para manter o equilíbrio nas curvas enquanto
sustentava aqueles quilos extras, além do meu sobrepeso. Finalmente encontramos
uma solução e cada coisa – e pessoa – em seu lugar. Ele abriu um largo sorriso
e me disse: estou indo trabalhar.
Aos 78 anos, como ele me contou, todos os dias enfrenta o
coletivo cheio para garantir um extra, além de sua aposentadoria. Ele não
enxerga direito e, sua baixa estatura e pouco peso, denunciam saúde frágil. Mas
eu não poderia imaginar a aula de amor e educação que me daria em pouco mais de
15 minutos de companhia.
“Eu amo viver. Sabe, eu não tenho religião, mas tenho um
contato direto com Deus. É minha única devoção, mas apesar de amá-lo demais, eu
não quero ir agora, ainda preciso ficar um pouco mais. Como eu gosto disso
aqui.” Um nó na minha garganta seria o suficiente para me calar, mas eu não me
contive e respondi: “que bonito o seu amor pela vida.”
Eu não sei se ele tem filhos, amigos próximos, se é
realmente bom como demonstrou ou se é cercado por pessoas que o amam o
suficiente, mas eu me apaixonei por cada expressão esboçada e cada palavra dita.
Uma ternura! Eu só queria ter a oportunidade de encontrá-lo outras vezes, mas
sabe como são essas coisas, há mais desencontros que surpresas realmente
agradáveis como esta.
Hoje eu acordei bem, fiz um carinho no meu marido antes de
sair de casa e enquanto ele ainda dormia, conversei com um amigo por telefone,
falei com a minha família por mensagem e estava de bom humor. Mas chegou esse
senhor e elevou todos os meus bons sentimentos numa potência máxima e me fez
decidir que nada poderia estragar o meu dia e que é preciso se sacrificar para
se manter vivo, não em matéria, mas na alma.
O fato é que a conversa me fez muito bem. Ele me disse que
tenta aconselhar alguns jovens, que às vezes não lhe dão ouvidos, mas “sigo
fazendo o meu papel”, avisou. Eu ofereci os meus ouvidos pra ele, tão
inteira... Tão carente de positividade.
Chegou a hora de descer e eu me despedi. “Obrigado pelo
assento!” ele me disse, não hesitei e respondi “obrigada pela lição”. Ele
retrucou “eu quem agradeço por você ter pedido o seu tempo ouvindo minha
prosa”, “eu não perdi nada com o senhor, não! Eu só ganhei.” E segui, para mais
um dia de trabalho.
Olhei para as bolsas pesadas e reavaliei muita coisa... Os
fardos que fazem com que os ombros doam podem parecer mais leves da maneira de
como você os carrega, como ele carrega as ferramentas sustentadas pela alegria
de ter um trabalho e se sentir útil. No meio do caminho, de tanto que ele falou
em Deus, eu não poderia deixar de agradecê-lo por esse anjo em forma de gente
ter cruzado o meu caminho, me fazendo acreditar que todos os dias é possível se
transformar em alguém melhor. Eu espero que, em breve, esse vovozinho
simpático, de sorriso largo, cruze o seu caminho também e te transforme, porque
aquela velha história do copo meio cheio e meio vazio é só uma questão de ponto
de vista.








