16/12/2014

Encontro de sorte

A caminho do trabalho, sentada no cantinho do ônibus, observei um senhor entrar com duas bolsas nas mãos. Pareciam muito pesadas. Ele se ajeitou em frente ao meu banco, mas de costas pra mim. Pedi a moça ao meu lado para que o cutucasse e ofereci o meu lugar. Ele logo aceitou.

Ao me levantar, o ajudei com as bolsas. Conforme eu havia observado tamanho seu esforço, estavam realmente muito pesadas. Enquanto ele se acomodava no banco, eu relutava para manter o equilíbrio nas curvas enquanto sustentava aqueles quilos extras, além do meu sobrepeso. Finalmente encontramos uma solução e cada coisa – e pessoa – em seu lugar. Ele abriu um largo sorriso e me disse: estou indo trabalhar.
Aos 78 anos, como ele me contou, todos os dias enfrenta o coletivo cheio para garantir um extra, além de sua aposentadoria. Ele não enxerga direito e, sua baixa estatura e pouco peso, denunciam saúde frágil. Mas eu não poderia imaginar a aula de amor e educação que me daria em pouco mais de 15 minutos de companhia.

“Eu amo viver. Sabe, eu não tenho religião, mas tenho um contato direto com Deus. É minha única devoção, mas apesar de amá-lo demais, eu não quero ir agora, ainda preciso ficar um pouco mais. Como eu gosto disso aqui.” Um nó na minha garganta seria o suficiente para me calar, mas eu não me contive e respondi: “que bonito o seu amor pela vida.”

Eu não sei se ele tem filhos, amigos próximos, se é realmente bom como demonstrou ou se é cercado por pessoas que o amam o suficiente, mas eu me apaixonei por cada expressão esboçada e cada palavra dita. Uma ternura! Eu só queria ter a oportunidade de encontrá-lo outras vezes, mas sabe como são essas coisas, há mais desencontros que surpresas realmente agradáveis como esta.

Hoje eu acordei bem, fiz um carinho no meu marido antes de sair de casa e enquanto ele ainda dormia, conversei com um amigo por telefone, falei com a minha família por mensagem e estava de bom humor. Mas chegou esse senhor e elevou todos os meus bons sentimentos numa potência máxima e me fez decidir que nada poderia estragar o meu dia e que é preciso se sacrificar para se manter vivo, não em matéria, mas na alma.

O fato é que a conversa me fez muito bem. Ele me disse que tenta aconselhar alguns jovens, que às vezes não lhe dão ouvidos, mas “sigo fazendo o meu papel”, avisou. Eu ofereci os meus ouvidos pra ele, tão inteira... Tão carente de positividade.

Chegou a hora de descer e eu me despedi. “Obrigado pelo assento!” ele me disse, não hesitei e respondi “obrigada pela lição”. Ele retrucou “eu quem agradeço por você ter pedido o seu tempo ouvindo minha prosa”, “eu não perdi nada com o senhor, não! Eu só ganhei.” E segui, para mais um dia de trabalho.  

Olhei para as bolsas pesadas e reavaliei muita coisa... Os fardos que fazem com que os ombros doam podem parecer mais leves da maneira de como você os carrega, como ele carrega as ferramentas sustentadas pela alegria de ter um trabalho e se sentir útil. No meio do caminho, de tanto que ele falou em Deus, eu não poderia deixar de agradecê-lo por esse anjo em forma de gente ter cruzado o meu caminho, me fazendo acreditar que todos os dias é possível se transformar em alguém melhor. Eu espero que, em breve, esse vovozinho simpático, de sorriso largo, cruze o seu caminho também e te transforme, porque aquela velha história do copo meio cheio e meio vazio é só uma questão de ponto de vista. 

14/11/2014

Aquele meu amigo maneiro, sabe?

Recebi a ligação de um grande amigo dia desses. Passamos uma eternidade – tipo, 20 minutos. Isso pra mim é uma eternidade! – falando sobre a nossa vida. Acho que por isso eu gosto de manter a amizade com homens... Geralmente eles conduzem a conversa focada no bate volta você/ele versus ele/você! No máximo pinta um assunto sobre a ex (chata toda vida) dele e aí, qualquer mulherzinha, aproveita para dar umas alfinetadas. Apenas.

A maioria das pessoas usa a frase clichê/machista/idiota que vangloria a teoria de que a “amizade entre homem e mulher não existe.” Aqui, meu amigo (literalmente), essa porra existe sim... 

Homens são mais objetivos – e simples, de forma geral. Seu amigo não vai te ligar te convidando para uma 'pool party', mas sim, para aquele churrascão na piscina com as 'barangas' de biquíni. Ainda completam dizendo "manda o teu marido trazer cerveja da boa, porra!". Os meninos também, de forma geral, não se incomodam quando você não pode comparecer no dia do aniversário dele, respondendo a negativa, no máximo, com um "tu é foda! Mas beleza, vou aproveitar e comemorar pegando uma 'mulé'." São menos sentimentais nesse quesito e isso me motiva muitas vezes a deixar de ir ao shopping para tomar uma cerva!

Também é bom ter uma visão masculina quando se quer desabafar sobre um relacionamento. Ao invés de te convidar para partilhar um pote de sorvete assistindo a filmes melancólicos, eles são mais sinceros e é quase inevitável não ouvir "também, tu é chata pra caralho! Fica difícil pro cara...", seguido de bons conselhos sobre a ala masculina.

Por falar em sofrimento amoroso, tem outra coisa que eu admiro nos caras. Quando o relacionamento dele não tá legal e ele decide desabafar sobre o momento "down" (eles também não usam esses termos 'femininos'. 'Viadagem', como dizem) não rodeiam, ao contrário de nós, mulheres. Falam, assumem e resolvem, ali mesmo. Se você ligar dois minutos depois, ele já aboliu a missão 'dor de corno' e já tá ocupando a cabeça com meia dúzia de besteira. Mole, mole. Fácil, fácil. 

Eles sempre vão ter tempo pra você, até porque não fazem as unhas e cabelos, passam menos tempo no shopping e estão sempre disponíveis para tomar uma gelada. Quando engatam um relacionamento é primordial que a garota seja simpática e te admire. É capaz de casar com ela caso se identifiquem e se tornem melhores amigas.

Os - homens - amigos de verdade também são adeptos aquela 'zoação' que as meninas, geralmente, não aguentam. Pra superar, tem que ter jogo de cintura e entrar na dança. Aquela piada do 'Viva São Jorge' quando você apresentar o namorado novo nunca vai sair de moda. Pode apostar. Ser amiga de um cara não é para qualquer uma. Ah, tem uma coisa ótima: eles te permitem ser idiota em tempo integral e todas as bobagens que vocês conversam entre si ficam ali - Quer dizer, em algum momento ele poderá usar esses 'atributos' contra você, mas não por maldade... Só por ser idiota mesmo. 

E assim vai... Mas, de um todo, as meninas não são chatas, mas vamos combinar, "mulher é um bicho complicado" é um clichê/machista/idiota, mas faz todo o sentindo. E eu, histérica, insegura e, por vezes, maluca, só quero ter alguém equilibrado em confiar e que diga "seu trouxa, aquela minha amiga mongol é chata e tem um monte de defeito, mas se fizer com que ela sofra eu te arrebento!"  




13/11/2014

Um milhão de amigos... Ou não!

Com todas essas possibilidades que a web nos trouxe de bandeja, os amigos imaginários foram substituídos pelos ‘colegas virtuais’. E a coisa tá ficando séria! O amigo do meu amigo, que comentou na foto de outro amigo em comum, com uma linha de raciocínio parecida com a minha já é meu amigo. Entendeu?

As relações estão cada vez mais superficiais. Não me assusta, por exemplo, entrar na página de relacionamento daquela menina tímida do colegial, que mal falava, e perceber que está mais para Roberto Carlos, sustentando a ideia de “ter um milhão de amigos”. Clichê. Mas é! Fazer o quê? Mas a minha curiosidade coça, incomoda, mas não se sobrepõe ao meu bom senso (graças a Deus!) e eu consigo me controlar... Mas a vontade que tenho de perguntar quantas daquelas pessoas a visitaram nos últimos três anos... Ah, que vontade! Ou, quem sabe, contabilizar quantas preferiram ligar no dia do aniversário, ao invés de mandar um ‘inbox’ ou escrever publicamente na página... Garanto: daria pra contar nos dedos.

Dia desses pensei em me testar. Decidi fazer uma limpa na minha rede social e, por mais destoado que pareça o meu raciocínio, não consegui, sequer, excluir meia dúzia de ‘desconhecidos’. De verdade! Quando olhava para aquela moça, que adicionei no período da faculdade e que hoje trabalha em uma grande empresa do ramo, materializo uma situação do tipo “ei, estou desempregada! Para onde posso enviar meu currículo?” Já aquele rapaz que adicionei para me conceder uma entrevista, difícil desapegar “vai que preciso dele em outra situação ou talvez para ‘suitar’ a matéria?” E assim vamos deixando, deixando e deixando... E deve ser assim com todo mundo! O slogan ‘Interesses: cada um tem o seu!’ sobressalta as relações.

Vai vendo, amigo, porque você deve contemplar essa categoria ‘interessante’ em muitas situações. Não adianta se autointitular o ‘grande amigo da galera’ porque em uma hora ou em outra sua teoria vai cair por terra. E cuidado, porque dependendo da decepção, você cai junto e o machucado pode ficar feio... 

10/11/2014

Deixa estar...

As mulheres querem se identificar. Não importa com o que. Não importa o momento. Enquanto algumas se anulam da “incrível geração das mulheres chatas”, conforme definiu a colunista da Folha de São Paulo, outras compartilham o texto de outra autora que sustenta a teoria  do “amor muito específico.”

Balela!

Ninguém tem razão, porque ninguém é igual. Generalizar chatice é muito cômodo quando se está com alguém e limitar o sentimento em especificidades é outra tolice. Contenham-se, meninas! A realidade é mais ampla. Conheço solteiras bem resolvidas, bem como conheço outras que, de tão desesperadas, criam namorados imaginários para não ficarem para trás. “Atrás de quem?”, eu me pergunto. Conheço umas e outras que aparentam felicidade constante e que de fato tem relacionamentos felizes. Outras, por comodismo ou medo de não arrumar nada melhor, mantém o convívio com o parceiro. Aliás, tem um monte dessas.

Por isso, nunca me identifiquei com ninguém. Tenho minhas chatices, cultivo as especificidades do meu amor e nem por isso me encaixo em uma coluna. Eita! Me deixa ser o que quiser. Se não der certo com esse, sei me virar sozinha! Dá para ir ao cinema desacompanhada, comer pizza sem dividir, fazer festa do pijama com as amigas regada à tequila. Ah, minha filha: nada melhor que ficar doidona com as amigas trancadas em um quarto, revelando os segredos mas íntimos, inclusive sobre o pinto do seu ex - o que você não pode comentar com o seu namorado atual!

Então, ao invés de manter essa guerrilha, nada mais justo que se concentrar no que você é! O amor acontece, independente de conceitos, independente de colunas, independente do que as pessoas digam.  Pode ser que não aconteça também - e não há nada de errado nisso! Dá para amar os amigos e a família e transar com meia dúzia por aí. Você ama e transa... Quase um namoro, mas em esferas diferentes. 

Espero que você me entenda, mas não se identifique. Porque esse negócio de se reconhecer em meia dúzia de palavras tolas só diminui a capacidade de você exercer o seu melhor papel: ser você mesma, independente do estado civil.  

07/11/2014

Só a metade

Seguindo para encontrar um cliente, já bem perto do local, recebo a ligação de uma colega do trabalho dizendo: "volta! A reuni foi cancelada." Pois é, reuni é reunião. Assim como 'apre' é apresentação, 'acade' é academia e um monte de outras palavras que as pessoas vem cortando pela metade. Como se nossa comunicação, em todas as esferas, fosse muito eficiente. 


Acho que, de forma geral, carregamos uma certa estafa - moral, inclusive - que nos permite poupar alguns aspectos. Até verbalizar está cansando. E, a cada dia que passa, mais econômicos estamos ficando.

Preguiça de viver, talvez? Não. Creio que não seja isso. Mas a possibilidade de viver em exaustão pode ser a causadora. Precisamos nos comunicar a todo momento, pessoalmente e virtualmente. É uma cobrança sem fim. Muita satisfação a dar, muitas tarefas para cumprir... Mas talvez o resultado desse corte de sílabas seja, simplesmente, uma modinha. E daí a gente acaba seguindo. O preocupante é se todo mundo resolver entrar na onda... "Não, por favor! Eu imploro."

Eu me recuso a receber um "eu te amo" pela metade, ou "sinto sua falta" resumido apenas na última palavra. Imagina ter que epilogar a prosa com o seu melhor amigo, pois vocês precisam ganhar tempo para ter mais tempo de ser apenas 50%? Ainda não estou nessa 'vibe.'  Quero palavras completas, pessoas completas... De rasa, já basta a ideia de que a vida pode terminar logo ali. Preciso mergulhar ainda mais fundo e não dá para submergir na vida do tronco pra baixo. Ou é por inteiro, ou não é! 

06/11/2014

Beirando a normalidade

Dia desses rolou um happy hour no trabalho. Mesmo não querendo estar lá, algumas vezes não dá para fugir dessas ‘obrigatoriedades’ da vida adulta: até quando não é um compromisso, nós temos compromisso. Enfim... Mas de um todo, não foi ruim. Demos risadas dos clientes, falamos sobre nossos projetos, perspectivas e, claro, da vida pessoal. Não há como fugir!

As mulheres com filhos falavam das peripécias infantis. Alguns homens faziam piadas com as sogras. Os recém-casados contavam sobre as novidades. E eu? Eu só estava de espectadora. Vez ou outra lançava um comentário, mas em geral eu só queria ouvir. Eram, praticamente, divididos em dois grupos: os muito satisfeitos e os extremamente insatisfeitos. Não, não tem meio termo!
Algumas pessoas reclamavam muito de tudo: mulher que pega no pé, homem que não ajuda em casa, sobrava até para a diarista que não tirava o limo do box. Também tinha o outro extremo: as moças que viviam contos de fadas, homens que ostentavam gostosas e transavam todos os dias e até aquela típica família ‘Doriana’, tão feliz a ponto de irritar, foi resgatada do comercial. Conclusão! Ninguém beirava a normalidade.

 Ninguém brigava de vez em quando e fazia as pazes depois. Nenhum casal, mesmo com mais de 20 anos de casamento, havia ficado uma semana sem transar – e mesmo assim estar tudo bem – porque tiveram dias cansativos. Ninguém nunca tirou o telefone do gancho para não receber visitas no domingo. Nem mulheres e nem homens desejaram estar longe um do outro e de qualquer outra pessoa por algumas horas para refletir sobre a vida. Ninguém nunca desejou despachar as crianças na casa da mãe para ter uma tarde ‘relax.’ Nenhum deles havia desmarcado um compromisso qualquer para ir ao cinema inesperadamente com o amado (a). Não juntaram economias e programaram uma viagem de acordo com as promoções do site de compras coletivas. Nenhum plano frustrou. 

Voltando para casa, decidi repensar sobre a minha vida e cheguei a conclusão do quão normal ela se tronara. Que bom!

Talvez aquelas pessoas nem vivam intensamente tudo aquilo, mas a necessidade se sobrepor positivamente ou negativamente ao outro grita. E, sinceramente, isso me incomoda. Detesto disputas inúteis. Parece que ninguém deseja ser comum, sem aqueles exageros afim de compor um personagem. Acho que é por isso que evito esse tipo de encontro. As vezes tenho até um pouco de preguiça! Contudo, as vezes é interessante ouvir o que o outro tem a te dizer, nem que isso sirva para te lembrar que viver em função das aparências é tão desinteressante quanto um happy hour em plena segunda-feira e que a ressaca moral é inevitável.

29/10/2014

Votos

Mais uma amiga está prestes a juntar as escovas de dentes e migrar, de vez, para o grupo das casadas. Como (quase) todas as noivas, ela anda meio histérica e em crise existencial há poucos meses do grande dia. um período patético e bem complicado. Aliás, meus pêsames ao futuro marido, pois é uma fase onde parecemos estar de TPM 24 horas.

Ela sabe meu gosto pela leitura, sobretudo meu amor pela escrita. A partir disso decidiu me pedir ajuda. Seu SMS dizia: "escreva meus votos." Me soou bastante estranho no primeiro momento, mas não deixaria de estender minha mão amiga nessa circunstância.


Partindo do princípio de que não poderia escrever sobre o amor do casal com propriedade, afinal, quando o assunto é relação, sabemos muito bem sobre as nossas, mas as de outras pessoas conhecemos superficialmente, pedi que ela escrevesse tudo o que esperava de um casamento. Sabendo de sua pouca intimidade com textos, sugeri que ela criasse tópicos. Ela, então, reuniu algumas palavras e mandou um novo SMS. Eu mandei ver!


"Querido,

Dedicamos AMOR um ao outro durante tanto tempo e pretendemos seguir este CAMINHO, por isto estamos aqui, nos UNINDO em matrimônio. Tivemos PACIÊNCIA e sabedoria para cultivar esse SENTIMENTO ÚNICO. Apesar de tudo isso, infelizmente não tive criatividade para escrever meus VOTOS. Pedi ajuda a maria, que pacientemente, assim como você, cedeu aos meus encantos, além de não poder me negar absolutamente nada durante esse período, já que estava um pouco nervosa.

Enviei algumas palavras-chave para compor esse texto, escrito por ela com muito carinho. Quanto aos votos, só gostaria de ressaltar que não mudaria em nada se eu os escrevesse ou não. EU TE AMO de todo o meu coração e pretendo te fazer feliz no DIA A DIA. Nesse momento eu devo estar indo às lágrimas e com certa vontade de esganar a Maria, mas ela é um mal necessário. Mas tenha certeza, querido, independente da minha falta de talento para escrever, tenho talento de sobra para te AMAR. Um BEIJO."


Por e-mail, encaminhei a mensagem há pouco e aguardo resposta. Junto com os votos, escrevi a seguinte justificativa:

"Amiga,
Obrigada pela oportunidade, mas não pude expressar seus sentimentos. É muito difícil falar de amor. Mais difícil ainda é falar sobre o amor do outro. Geralmente, quando amamos demais, fica ainda mais complicado mensurar em palavras. Entende? Não é pecado não saber o que dizer em certos momentos. Votos são lindos, mas não há nada demais em não conseguir expressar sentimentos. Isso não significa amar a mais ou amar de menos. Mas, ainda assim, decidi falar sobre vocês de forma leve e, espero, inspiradora. A essa altura, a última coisa que, de fato, comprovaria o seu amor, seria meia dúzia de palavras. Aja como tem que agir, ame como tem que amar e seja o que deve ser e, principalmente, quem mostrou ser até aqui. A caminhada é longa, minha querida, e não são palavras prontas que farão com que ele se apaixone por você ainda mais. O amor acontece todos os dias e as atitudes demonstram muito mais que um simples texto escrito em um pedaço de papel.
Com amor,
(apenas) Maria"

27/10/2014

A dormideira e outras saudades

"Dorme, dorme, dormideira e só acorda segunda-feira." Passei parte da minha infância olhando para o chão com o intuito de encontrar uma Mimosa Pudica. Esse é o nome científico daquela simpática plantinha que, ao ser tocada, se fechava por inteira,  graças a um processo de defesa.

Dia desses, voltando do trabalho, eu encontrei algo parecido na rua. Passei o pé na tentativa desesperada de fechar as pequenas folhas. Em vão... Era uma espécie parecida, mas não era a bendita! E me dei conta de que nunca mais me deparei com uma dormideira no caminho... Ou talvez eu ande olhando pouco para o chão. É tanta coisa pra pensar, pra fazer e olhar, que as dormideiras desapareceram.


Poderia colocar a culpa na evolução, "com tanto prédio construído, afinal, como cultivar dormideiras?" Mas acho o que cultivamos pouco mesmo é o ato de estar atento ao que também não importa. Eu aposto que, depois que cresci, uma milhão de dormideiras ainda cruzaram o meu caminho, mas estava ocupada demais pra perceber.


É simples: crianças, durante o processo de crescimento, se importam com as coisas mais banais possíveis. Eu me lembro, quando menor, de ouvir atentamente o que meu avô falava. Não interessava o assunto! Ele falava sobre Brizola e, aos sete anos, eu absorvia tudo aquilo. Tá certo dizer "ok, crianças não têm metade dos nossos compromissos e preocupações", sim, é verdade! Mas também poderiam ter o nosso desinteresse. E não têm! 


Tenho saudades de quando eu observava mais, falava menos. Tenho saudades do meu avô e das dormideiras. As vezes, com toda essa loucura, tenho vontade de que alguém cante pra mim a música que me permita dormir numa sexta e acordar três dias depois, porque esse excesso cansa e aquele tempo não volta mais! 

(por hoje) Maria

24/10/2014

Desculpa, Clarice, mas eu vou te decepcionar!

Querida, me desculpe, mas eu não posso compactuar com tudo isso. Olha, Clarice, nem tudo é como este filme horroroso que você assistiu hoje de manhã. Não há fadas, nem carruagens, tampouco sapato de cristal. Príncipes, então, fora de cogitação, já que somos todos imperfeitos. Mas quando você estiver mais crescida vai aprender na prática, por ora e como mãe, me sinto na obrigação de não alimentar toda essa baboseira acerca de um mundo onde não existe tantos contos. Clarice: é tudo muito diferente.

Não sou uma rainha, também não me sinto preparada para produzir princesas, minha querida. Me desculpa mais uma vez! Não dá para sustentar essa fama de coitada por muito tempo, como fez a Branca de Neve, muito menos dormir e acordar maquiada. As coisas não são fáceis quando não se é a Cinderela.


Clarice, minha filha, eu sinto muito ter que dizer isso, mas a madrasta está em todos os cantos. Esse é o único personagem que, de fato, você pode encontrar no caminho. Travestido das mais diversas fantasias, poderá, inclusive, se fazer de amiga para abocanhar os seus sonhos. Não permita! Seja menos ingênua que a Bela Adormecida, por favor, e esqueça aquela pose puritana de que não “desce do salto” para lutar pelo que é seu.


Veja, Clarice, apesar do real não ser realeza, de um todo, o mundo não é tão ruim. Há pessoas que vão te amar, cuidar e te proteger. Pode acontecer de outras te machucarem, mas vão existir aquelas que te farão sorrir e, como as fadas desses contos, irão te abençoar com uma preciosidade chamada felicidade. Sorte a sua, minha querida!

Vestidos rodados não são encontrados em liquidação e nem sempre são adequados para o dia a dia. Você poderá ser chamada de cafona se optar por modelos parecidos com os da Rapunzel. Os coques, penteados estilo meio preso e meio solto, ou aquela trança que te encantou, serão usadas apenas em momentos especiais, porque princesas não são apressadas como nós, Clarice! Dispomos de pouco tempo para ser, crescer, prosperar e amadurecer. Filha, você vai se cansar de muita coisa, em certos momentos será a bruaca da história, mas tudo isso vai te construir, para você que você mesma desconstrua... E construa de novo, até não haver mais o que fazer, porque, meu bem, ao contrário do irreal, o The End é de fato o fim.


(por hoje) Maria.